Como o varejo pode combater os furtos e o chamado mercado cinza?

por Antônio Balbino 06-08-2019 14:50
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No mês de junho tivemos a divulgação da pesquisa de perdas no varejo da Associação Brasileira de Prevenção de Perdas (ABRAPPE). Os resultados não foram os melhores e um ponto preocupante foi o aumento no índice de perdas: passou de 1,29% ou R$ 19,58 Bilhões para 1,38% que representa R$ 21,46 Bilhões. Precisamos falar sobre este índice e sobre o quanto ainda estamos atrás em matéria de combate a furtos e perdas para que possamos planejar mudanças e evoluções no mercado do varejo.

Recentemente escrevi um artigo em meu LinkedIn com o tema “O mercado paralelo é o seu pior concorrente?”. Percebi que precisava abordar um pouco mais o assunto, mas desta vez com uma pegada mais técnica. Observando os índices revelados pela pesquisa vemos que, somados, os furtos internos e externos representam 31% no montante das perdas, ou seja, R$ 6,65 Bilhões.  Por isso, vamos falar um pouco sobre o quanto o nosso Brasil está atrasado em relação aos crimes no varejo.

Há alguns anos, mais precisamente em 2010, o varejo americano teve um prejuízo de US$ 37 bilhões. Na época, foram rotulados como “crimes organizados no varejo”, nome dado pelo FBI que criou um departamento chamado “programa de roubo organizado no varejo” (sigla em inglês ORTP). O FBI criou um banco de dados composto por varejistas e departamentos de polícia de várias cidades, para troca de informações via internet que auxiliassem na prevenção de roubos e localização dos bens surripiados. Poucos meses depois existiam 46 mil lojas cadastradas.

Por isso afirmo: Sem parceria entre público e privado fica difícil conseguir reduzir esse índice de furtos.

A questão é que o mercado cinza ou paralelo é quem recepta e vende esses produtos furtados em nossos varejistas. A economia cinza consegue se auto sustentar, pagando trabalhadores por baixo dos panos, sem recolher imposto de renda ou qualquer contribuição. Atitudes como esta reduzem a quantidade de vagas formais porque as empresas acabam demitindo funcionários por conta de perdas que geram impactos negativos. A primeira coisa que o empresário faz quando nota prejuízos é reduzir a equipe entre várias outras ações posteriores para tentar equalizar suas receitas e despesas.

Abaixo mostro um exemplo de como funciona o mercado cinza:

 

produtos furtados em supermercado

Na imagem acima, vemos uma ação na qual a equipe de prevenção de perdas da empresa conseguiu identificar e desmontou uma quadrilha que atuava em toda grande Recife. Já na foto abaixo vemos um mercado informal no centro da cidade de Recife, o chamado mercado cinza. Como podemos ver, vários dos produtos expostos também estão na foto acima. Esta é uma cena que está se tornando comum não só na capital, mas também na maioria das cidades e em muitos estados do Brasil.

venda ilegal de produtos saqueados

 

 

O grande vilão disso tudo não é o furtante ocasional ou o furtante impulsivo “cleptomaníaco”. O grande vilão é o FURTANTE PROFISSIONAL ou HABITUAL, que age em quadrilha e furta grandes quantidades.

A mente do criminoso habitual funciona como a de um comerciante, ou seja, busca o lucro. Muitas vezes ele mesmo faz uma análise de riscos, sabia? Analisa qual o risco de ser pego e até mesmo o grau de probabilidade de cumprir pena caso pego. Estes furtantes não são chamados de profissionais à toa.

 

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Outro fator importante que impacta nos números do varejo é a falta de registro das ocorrências. Poucas são as empresas que registram e lavram boletim de ocorrência, ponto que impacta diretamente nas tratativas dos órgãos responsáveis. Quando a polícia não é acionada, gera o que chamamos de “cifra negra”. O que tem influenciado no aumento de crimes no varejo é a impunidade e o fato de tratarem os criminosos como se fossem apenas vítimas da sociedade. Junto a isto temos a grande dificuldade de diferenciar quem é criminoso habitual de quem é criminoso eventual.

 

Tendo essa visão e sabendo de todas as dificuldades, sejam internas ou externas, existem possibilidades de o varejista conseguir reduzir seus furtos? Claro que sim! Irei relatar algumas abaixo:

  1. UNIÃO DOS VAREJISTAS: não existe possibilidade de gerar força e pressionar o poder público sem a união dos varejistas. Nesse momento precisa-se esquecer o fato de são concorrentes, afinal de contas, nas perdas não existe concorrente!
  2. BANCO DE DADOS: como identificar o furtante habitual sem imagens? Principalmente sem compartilhar essas imagens e assim identificar que o fulano roubou cinco lojas em diferentes estados este mês. Com estas informações é possível gerar o modus operandi do criminoso. Este banco deve passar a ser administrado pela polícia, assim como nos EUA.
  3. TECNOLOGIA: é fundamental para a prevenção de perdas, porém devem ser utilizadas de forma preventiva e não reativa como a maioria do varejo usa. Não adianta procurar imagem de furtante depois que ele já foi embora da loja. A TUB Câmera, por exemplo, pode auxiliar muito no monitoramento de suspeitos de furto sem chamar atenção. O Gatecash também pode reduzir bastante as fraudes na operação de checkout. As antenas antifurtos, antigas conhecidas, já não são mais novidade há muito tempo, mas temos muitos varejistas que não querem investir e acabam segregando produtos e reduzindo muito as vendas ou preferindo ser furtados, correndo o risco de expor sem proteção.
  4. EQUIPE ESTRATÉGICA DE PREVENÇÃO: as empresas precisam entender que a qualificação de sua equipe é condição básica para um bom desempenho. Ter profissionais com conhecimentos técnicos aprofundados e com visão dos negócios é fundamental. Já passou da hora de entender que prevenção é muito mais que entregar apenas um uniforme com o nome prevenção de perdas nas costas e ficar o dia inteiro na frente da loja tentando identificar furtante no “olhômetro”.

E destaco também um fator importante: só existe mercado paralelo por existir demanda. Se a população parar de comprar em locais ilegais, a demanda irá reduzir. Para alcançarmos um melhor lugar para o varejo, precisamos de esforços em conjunto.

 

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Topics: Perdas no Varejo, CFTV, Equipe e Treinamento, O profissional de Prevenção de Perdas, Frente de Caixa, Furtos internos, Sistemas Antifurtos